Tobias Blog
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Junho de 2006

Por causa de um exame
Há tanta coisa que gostaria de estar a fazer agora. Mas por causa dos exames, tudo o que faça só serve para aumentar a culpa, pois sei que devia estar a estudar apesar de já o ter feito durante mais de quatro horas seguidas. Tudo perde piada quando se está em exames. A sociedade consegue estragar a vida de uma pessoa, estragar todos os sonhos... Quando uma pessoa está finalmente livre, olha para si mesma e repara que já é velha, que já nada pode fazer. Sente que lhe foi roubada uma vida inteira e para quê? Para nada, não fez nada do que quis, só do que quiseram. É claro que perante uma situação destas é normal que uma pessoa desista. Mas, para agora não importa como me sentirei daqui a uns setenta anos. Interessa é agora. E o que é que eu devo fazer agora? De momento estou a aproveitar o tempo para escrever como me sinto. Muita culpa, algum alívio, porque escrever traz sempre alívio. Alívio à alma, paz de espírito. É bom fazer uma pausa por um momento, parar para pensar. Pensar que não vale a pena sentir culpa. Que só é preciso muita calma para fazer o exame. Especialmente esquecer o livro de química por alguns momentos. Pelo menos até amanhã. Mas também posso dizer que depois do exame é a primeira coisa que vou esquecer, o livro de química. Nunca vi nada que me desse cabo da cabeça como aquele livro dá. E não é por não perceber. É simplesmente porque um gajo farta-se de estudar para chegar aos testes e ter uma nota altamente desconstrutiva e desmotivadora. Onde é que está a motivação? Estou farto de química. Depois do exame escrevo uma cartinha à professora. Em opções tenho muitas. Posso insultá-la, desconstruí-la, elogiá-la ironicamente, dizer o que gostei das aulas dela ( carta curta ), e mais. Mas acho que já sei. Vou escrever uma carta a dizer que é uma grande professora e que gostei muito das suas aulas. Mas a sério, vou dizer isto a sério. Não há nada melhor do que deixar uma pessoa na ilusão. Tal é a desconsideração que tenho por ela que acho que nem tem direito a saber a verdade. Olha, para isso nem escrevo carta nenhuma. Assim é melhor. E para esquecer isto tudo não há nada melhor do que a música. Aquela coisa mágica que ninguém sabe porque é que existe ( porque é que o vibrar das partículas emite aquilo a que chamamos som? ), mas que nos ensurdece do mundo e o nosso pensamento entra em sintonia com o ritmo, por isso é que vou ouvir uma música alegre, para pensar alegre. E ficamos fechados num mundo, com os phones nos ouvidos até nos esquecermos de quem somos e que somos. Depois a música acaba, tiramos os phones e sabemos que é altura de voltarmos para o mundo. E tudo isto por causa de um exame...

Especial
Nós escrevemos sobre aquilo que vemos como normal. Sobre aquilo que achamos que é comum em nós todos. Pensamos que acontece com todos e achamos que as nossas opiniões são iguais às de toda a gente. E é no normal que encontramos o especial. O especial que somos aparece quando somos normais. Ao escrever o que penso de toda a gente, estou a escrever o que eu e só eu penso e mais ninguém. Estou a ser único tentando ser o mais comum de todos.

Como escrever um livro
Como escrever um livro. Neste momento é fácil saber sobre que tema se há-de escrever para se fazer guito. Neste momento o que está na barra é escrever sobre Jesus Cristo e, digam o que disserem sobre ele, vende-se. Até podem dizer que era um gajo da pior espécie, que fazia trinta por uma linha e que andava a enganar o pessoal. Ou podem dizer que era um empresário que criou uma empresa, a maior de todas, a única que conseguiu subsistir durante dois mil anos e interferir com a vida das pessoas e com o papel do Estado. Qualquer coisa serve. E, se for preciso, escrevem um Evangelho a fundamentar o vosso livro. Tanto faz, é como quiserem. A estrutura, essa também é fácil. Pegam num livro já escrito e bom e transcrevem todas as palavras para a sua respectiva classe, ou seja, em vez de terem o “João”, escrevem “nome próprio”, e por aí fora, e também anotam a função que “João” desempenha na frase, como por exemplo, “sujeito simples”. E depois, esquecem o livro que escolheram, e escrevem sobre o tema escolhido por cima da estrutura que transcreveram. E pronto, agora ficam com um livro para vender. Em Portugal, se o livro ficar pequeno, escolham um tamanho de letra grande e coloquem um espaçamento entre os parágrafos bem grande para chegar a algumas folhas. E chegamos ao fim deste curso. E se há alguém que segue este método para escrever e fazer guito, ou é português, ou é uma besta, e há muitos por aí

Diário de um explorador do século XIX
Estamos aqui no meio da Amazónia em busca do Vale Perdido. Mas, não sei se sabem, quem está perdido não é o vale, somos nós. E queria aproveitar a oportunidade para comentar o poema do cão publicado pelo Sujeito Poético. Mas perdido como estou não faço a mínima ideia de onde é que devo escrever. Bolas!

O que é a Vida
A Vida? Eu explico-vos o que é a Vida. A Vida é uma preparação para a própria Vida. Todos os dias somos confrontados com pequenas situações e todas elas diferentes. Desde o contacto com outras pessoas, como por exemplo ir à mercearia, até termos a nossa própria conta no banco. É como se fossem pequenos testes para os quais não estudamos mas reagimos e avaliamo-nos, de maneira que na vez seguinte já estamos à espera e conseguimos prever o resultado ou, pelo menos, já sabemos qual o caminho ou atitude a tomar. E só então saberá a Vida que completámos mais uma fase e partimos, assim, para outra repleta de novos testes. Com a responsabilidade vêm desafios diferentes, cada vez mais difíceis até nos tornarmos totalmente independentes. Mas, até mesmo nessa altura ainda não nos livrámos destes testes. Arranjamos o nosso primeiro trabalho e lá vamos nós, tímidos, conhecer pessoas novas e apresentarmo-nos a um novo estilo de vida. E, todos os dias, somos testados. São aquelas pequenas ( ou grandes ) situações de tensão das quais acabamos sempre por nos rir quando mais velhos. Inevitáveis e transpirados, acabam por se tornar no nosso dia a dia, pelo menos para aqueles que o vivem fora de casa. Mas, mesmo que não saiam de casa, a Vida vai ter convosco. Não vale a pena evitar estes testes, até porque estes testes é que são a Vida, e evitá-los é evitar a própria Vida, evitar algo que é de nós, que nós somos.